Maria Aparecida de Souza
Maria Aparecida de Souza
Transcrição:
00:00:00:00 - 00:00:08:16
Desconhecido
Meu nome é Maria Aparecida de Souza Novais. Eu nasci no dia 24 de dezembro de 1970.
00:00:08:16 - 00:00:33:14
Desconhecido
meu pai, José Barbosa de Souza. A minha mãe é Santa Pereira Pardi. Meu pai vai completar 96 anos agora em março e minha mãe por coincidência hoje ela faz 94 anos. Eles são da cidade de Ouro Verde Minas, nasceu lá, criou toda a família lá, eu e meus irmãos e depois de anos eles mudaram aqui para Taquara.
00:00:33:14 - 00:01:03:06
Desconhecido
eu morava em Ouro Verde. Como eu já disse, nasci lá e vivi lá até os 17 anos e minha irmã casou, foi pra Belo Horizonte, depois mudou aqui para Teófilo Otoni, foi pagar aluguel. Aí o marido dela descobriu que aqui na Taquara eles doavam terrenos para as pessoas fazerem aqui as suas casas.
00:01:03:08 - 00:01:31:05
Desconhecido
Ai ele descobriu essa realidade. Só que minha irmã na época ela estava meia depressiva. Aí eu saí de Ouro Verde e vim morar com ela. Aí Gessé conseguiu um terreno aqui e era construído o alicerce em regime de mutirão. Então todos os domingos a gente vinha pra cá, trazia alimentação e aqui a gente construía os terrenos.
00:01:31:05 - 00:02:03:19
Desconhecido
E aí deu cinco alicerces. Mas não parava por aí. A gente tinha que continuar o mutirão. Enfim, meu cunhado era pedreiro, construiu dois cômodos, um banheiro e a gente mudou pra cá. A situação era precária, porque não tinha água, não tinha luz. Esse asfalto aqui era uma estradinha muito estreitinha. E foi feito assim pra passar a gente passar pra lá, trabalhar nos mutirões.
00:02:03:21 - 00:02:38:10
Desconhecido
Então nós mudamos pra cá com muita dificuldade. Não tinha água, a gente pegava água lá próximo da quadra, ali tinha um poço que a gente pegava água lá, que a gente chamava de biquinha. Depois da Biquinha, foi evoluindo um pouco mais e teve o chafariz e tudo Era muito difícil. Os governantes daquela época não facilitava pra gente e era tudo muito difícil, mas a gente nunca desistia.
00:02:38:12 - 00:03:04:19
Desconhecido
Conseguimos o chafariz, depois nós corremos atrás da luz. Isso um tempo depois. Depois nós corremos atrás da água, que também foi muitos anos depois. E é o que a gente fazia pra estar mobilizando o povo de morador que tinha desse lado aqui. Ali em baixo tinha uma casa que se chamava Casa Velha, que hoje é o posto de saúde e o centro comunitário.
00:03:04:21 - 00:03:46:11
Desconhecido
A gente reunia ali o único lugar que tinha uma luz. Aí a gente reunia lá toda semana. O povo reunia fazendo reuniões pra discutir o que a gente poderia fazer pra estar melhorando as condições do bairro. Foi fácil, Não foi fácil de jeito nenhum. E aí fomos nessa luta, fomos nessa luta. Aí surgiu a Romaria da Terra, que todo ano a gente fazia pra unir pessoas de outros dos nossos bairros, das outras comunidades, pra fortalecer ainda mais a nossa luta. A Romaria da Terra
00:03:46:13 - 00:04:11:06
Desconhecido
era feita ali onde que tá aquela quadra. Tinha ali uns pés de manga, de fruta pão. Aí colocava aquele caminhão, a gente colocava o som e era o dia todo dia de festejos em torno da romaria da Terra. E aí os anos foram passando, a gente foi fazendo aquela, aquela, aquele trabalho de comunidade com a Igreja em parceria.
00:04:11:08 - 00:04:49:02
Desconhecido
Padre Geovane Que é uma pessoa que a gente nunca vai esquecer porque foi o pilar para tudo isso acontecer, né? E foi a pessoa que quem conseguiu as verbas pra fazer os alicerces que posteriormente seriam as casas desses moradores que estão aqui. Encontramos muita dificuldade nas lutas, mas a gente persistente que é, a gente não desistia, né? E depois as pessoas foram se achegando, fazendo as suas casinhas, se reunindo, se organizando e hoje se tornou nesse bairro aí que vocês estão vendo.
00:04:49:04 - 00:05:30:08
Desconhecido
Falta muita coisa ainda falta muita infraestrutura, mas andamos muito, andamos muito, né? Muitas pessoas que aqui vieram juntamente com a gente... com alguns já faleceram... a exemplo Seu Adão, seu Adão Soares, esposo de Dona Carlinda, que também foi um dos primeiros moradores aqui. E a gente tá aí tem mais ou menos uns 33 anos que eu moro aqui nesse bairro e eu tenho muito amor por aqui e então aqui é minha comunidade, aqui eu.
00:05:30:10 - 00:06:04:18
Desconhecido
Eu vim aos 18 anos, casei, tive minhas duas filhas que estudaram, que se formaram. Uma já casou, a outra trabalha e também vai se casar e nesse ano e a gente vai levando e vendo a história se prosseguir através de outros. Eu ainda tenho energia suficiente, ainda luto por dias melhores, por condições melhores para o povo dessa comunidade.
00:06:04:20 - 00:06:41:15
Desconhecido
Trabalho na creche, sou professora de educação infantil e evoluí bastante aqui como pessoa e entendendo que sem luta nada acontece, né? Então o que eu falo é que muitas das vezes as pessoas que chegaram depois eles não conhecem a fundo a história desse bairro que se conhecesse, se juntaria mais, se reunia mais pra poder reivindicar muita coisa que aqui ainda tem por fazer.
00:06:41:15 - 00:07:17:12
Desconhecido
seguindo falando um pouco da religiosidade que nos ajudou muito nesse, nesse movimento de bairro. Quando chegamos aqui tinha no início do bairro a Capela Nossa Senhora da Penha, bem em cima, depois foi demolida. E lá a gente se reunia também para rezar, para agradecer a Deus pelas conquistas que a gente tinha a cada dia, com a luta.
00:07:17:14 - 00:07:52:10
Desconhecido
E lá eu já vinha de um trabalho de igreja lá de Ouro Verde, a Igreja São João Batista. Então eu tinha já um jeito de trabalhar com jovens, com criança e seu Adão. A convite dele eu fui para essa capela Nossa Senhora da Penha. Lá a gente iniciou a catequese e com o Padre Celestino, na época. Primeiro Padre Amaro, depois Padre Celestino.
00:07:52:12 - 00:08:27:12
Desconhecido
Aí a gente começou um trabalho de catequese com crianças. A gente não tinha muito assim, a dimensão de separar por faixa etária. Então a gente pegava todo mundo e a gente fazia a coroação. A gente fazia o teatro da Paixão de Cristo. Foi uma coisa também que a gente criou através da Igreja Nossa Senhora da Penha. Então a gente pegava o povo da comunidade, aqueles que já tinham mudado pra cá e a gente fazia o teatro da paixão de Cristo.
00:08:27:12 - 00:08:56:05
Desconhecido
Mais gente, vocês precisam ver que coisa maravilhosa! A gente saía na sexta feira Santa por essas ruas, com o Jesus na cruz. Todos os personagens da Paixão de Cristo a gente conseguia montar e trabalhar e a gente realizava aqui na quadra. O povo lá da cidade, ele já não ia mais na praça de esporte ver o teatro lá, pra vir aqui, né?
00:08:56:06 - 00:09:18:20
Desconhecido
Porque era muito interessante. Era um povo muito unido, o povo acolhedor, que a gente trabalhava assim, com aquela vontade, assim que o povo tinha aquela boa vontade de participar. Eu não sei se porque também naquela época não tinha mídias sociais, não tinha internet, telefone, não tinha nada. O que é que a gente fazia? Reunir. E isso era muito bom.
00:09:18:22 - 00:10:05:13
Desconhecido
Falo pra vocês que nessa época as coisas eram bem mais, por mais dificuldade que tinha pra gente, mas tinha essa parceria, esse contato e enfim, tivemos esse teatro aí perdurado por muitos anos. Depois Padre Celestino construiu um santuário Nossa Senhora Aparecida. E a gente transferiu pra lá as atividades da Igreja. Continuamos lá com trabalhos de grupo de jovens, com teatros, com mutirões pra limpar as ruas, porque não tinha carro de lixo não.
00:10:05:15 - 00:10:38:00
Desconhecido
Então a gente saía juntando os lixo, queimando pra limpar, porque sempre tem os resíduos que faz mal pra saúde da gente. Então a gente fazia e tinha um trabalho. Muito assim... um trabalho voluntário e com muito amor. Então teve esse ai, a gente começou a entender um pouco de política, a gente começou a entender qual o político que era mais favorável pro povo.
00:10:38:02 - 00:10:44:10
Desconhecido
A gente começou a lutar na política também. Saía fazendo campanha, né?
00:10:44:10 - 00:11:22:16
Desconhecido
O povo ficou acomodado, né? A diretoria de bairro ela não tá existindo, não tem diretoria. O ano passado a gente começou a voltar a reaver a memória do bairro e reaver também os trabalhos que estão perdidos, ficaram meio perdidos. Aí nós reunimos o ano passado três vezes pra poder falar da Romaria da Terra, que a gente está pensando em voltar novamente, falar sobre os trabalhos que ficaram perdidos e para resgatar.
00:11:22:17 - 00:11:35:05
Desconhecido
E foram três encontros bem proveitosos que eu acredito que nesse ano vai dar fruto e aos poucos a gente vai voltar a resgatar novamente as origens dessa comunidade que não pode perder.
00:11:35:05 - 00:11:40:00
Desconhecido
O legado que eu deixo aqui nessa história,
00:11:40:00 - 00:11:49:10
Desconhecido
isso pra mim é. É uma coisa que não... eu não tenho como mencionar.
00:11:49:12 - 00:12:35:01
Desconhecido
É tão grandioso o respeito que essas pessoas têm por a gente, por todo mundo aqui nessa comunidade aqui. O respeito que tem pelo trabalho da gente, pela luta da gente que a gente chegou aqui ainda jovem. Eu estou jovem ainda, mas já passou muitos anos e que a gente vê que não ficou perdido, que tem as sementinhas lançadas, que hora vai germinar e o legado que eu tenho do meus pais é que lá em Ouro Verde eles me ensinaram que aqui é uma luta, porque desde lá de Ouro Verde a gente já tem um trabalho voltado pra comunidade, voltado pra lutas populares, lutas sociais e que a gente vindo pra cá, parece que uma
00:12:35:01 - 00:13:14:12
Desconhecido
coisa chama a outra. Eu saí de lá que meu tio era presidente do Sindicato Ouro Verde, Geraldo Maurício e aí, vindo pra cá, eu só continuei, né? Foi uma luta mais difícil, porque nós tivemos que desbravar o lugar de se morar, mas uma coisa e emenda a outra, porque eu já tinha essa mente, eu já tinha esse jeito popular, esse jeito social que meus pais me ensinaram lá atrás quando eles me colocaram na catequese, quando eles me colocaram no grupo de jovens, porque eram mais ou menos isso que o meu pai ensinava pra gente e eu passei para minhas filhas.
00:13:14:14 - 00:13:34:04
Desconhecido
Minha filha mais velha é psicóloga, minha filha mais nova é assistente social e também gosta muito da luta. E minha filha mais velha, ela trabalha em instituição filantrópica e atende crianças de instituição lá na área da psicologia. E minha filha, assistente social.