Margot Souza
Margot Souza
Transcrição:
Em 2007, a convite de um amigo, eu fui assistir um espetáculo lá no Cine Vitória. Era Retalhos, e eu gostei do que eu vi, Achei assim diferente. E em 2008 eu fiquei sabendo que estava tendo as turmas lá no Cine Vitória. E aí eu entrei. Foi impactante assim porque não estava bem diferente daquela coisa de teatro, escolinha, sabe? Onde que a gente vê teatro? Escolinha e igreja.
Era muito diferente.
Eu senti que tinha um peso, sabe? Eu falei nossa, eu sou filha de um pai tenor. Meu pai cantou 35 anos no Coral Paulo VI Era uma coisa que era muito forte na nossa casa. A coisa da música sempre foi muito forte. Então eu considero que desde muito pequena eu tive a felicidade de nascer nessa casa. Eu acho que é assim. Eu sempre tive um olhar que a vida não era só aquela coisa da rotina, do dia a dia. Tinha algo mais assim, tinha poesia, tinha a música, eu sempre gostei de escrever desde muito pequena, contar história e criar histórias. Não só na parte da escrita, a própria coisa da música mesmo, embora eu não tenha seguido assim como cantora, acho que foi uma felicidade ter esse olhar mais atento para esse lado mais poético da vida, essa beleza.
A gente acaba tendo que revolver dentro da gente em cena, às vezes lendo textos e na condução das aulas você tem que fazer exercícios que te desafia corporalmente. Às vezes você tem que repensar certas defesas que você cria no dia a dia para... O que na verdade a gente está em cena o tempo todo. E isso eu vi lá dentro e o tanto que me ajudou.
Porque você não tem saída, chegou! Sabe aquela coisa do parto? A mãe tem nove meses para se preparar para aquela ideia, e não estou falando de cesariana, tô falando de parto natural. É diferente. Eu senti assim a primeira vez que nossa é hoje a apresentação, sabe como vai subir a adrenalina num grau que você fala não tem saída mais agora, agora tem que parir, agora tem que sair né?
A primeira vez foi assim. Sinceramente, até hoje agradeço aos Deuses que eu consegui dar conta, porque a gente tem aquela postura de achar que está tudo bem e vou dar conta. Mas foi impactante assim, a sensação de eu quero mais, eu sinto que eu posso fazer mais. Sabe aquela coisa que ampliou para a música, que era uma coisa que eu me segurava muito?
Que esse pai tenor que viveu a música de muito perto, ele sempre falava com a gente assim: “Eu não quero vocês nisso!” E aí eu travei, embora eu sinta que talvez eu pudesse ter seguido, cantado e tal. Acho que não por maldade, justamente por ele ter vivido a noite, ter passado por lugares que talvez tenham tido experiências muito até duras, porque a gente sabe que é um meio que é bom, tem as agruras, né? Mas sempre falava: “Eu não quero vocês nisso não, gente! Não vai, não vai mexer com música, não! E no teatro eu tive a oportunidade de trabalhar a interpretação... o canto com interpretação e foi muito legal. O In-Cena nasceu de muita vontade de que tivesse isso aqui em Teófilo Otoni. E aí eu comecei a trabalhar, a ajudar a fazer alguma coisa e em termos de manutenção de espaço e secretaria.
Depois a gente pulou para Francisco Sá e aí eu entrei de vez. Foi assim, foi a coisa, foi a medida que eu fui vendo o quanto fazia bem pra mim e o quanto era legal o que acontecia. Me deu vontade de não deixar que morresse. Eu queria que continua as que outras pessoas tivessem oportunidade. Quem é de Teófilo Otoni sabe. Eu acho que aqui não é diferente de outros interiores. Não tem nada, gente! É histórico, não é falta de interesse, não tem essa coisa de fomentar. Talvez agora, de uns anos pra cá, que as pessoas começaram a entender a importância e começaram a exigir a coisa está sendo estimulada. Eu não tem nenhum peso pra falar isso aqui, André é uma pessoa que é muito aguerrida, sabe?
Eu emociono porque eu acho que o tempo passa, as vezes as pessoas vão pesando muitas as coisas, esquecendo o que foi lá atrás. André e Cida foram pessoas que... sabe semente boa? Plantada em terra boa? Porque às vezes a gente está num lugar que é tão seco, aparentemente seco, e você não consegue entender que tem condição de brotar planta boa, fruto bom, e eu acho assim, na hora que eles estavam com mais força, foi propício.
Naquele tempo. Chegou Vanessa, chegou Valéra da federal, chegou... Entraram pessoas na prefeitura que tinha essa sensibilidade. Que eu falo, gente: “Entra governo, sai governo, vai ser o que tem de ser em termo de política.” Mas quando você tem pessoas que estão no poder, que estão naquele lugar, que tem esse olhar e aí encontra gente que está fazendo o que está correndo pra fazer acontecer.
André e Cida fazem das tripas coração assim, sabe? O Instituto não existia ainda. Era o In-Cena, o grupo In-Cena, tentando crescer. E tinha uma galera muito boa naquele tempo de cena, sabe? Eu penso que Cida e André tiveram essa força naquele momento ali, pra fazer a coisa acontecer. E quem foi chegando depois somou de uma maneira linda. As pessoas que foram chegando, sabe quando você vai botando fermento justo? Vai deixando a massa descansar, ela vai crescendo, depois você torna sovar. Então toda vez que acontecer alguma quebra, eu acho que era uma salvada nessa massa e quem foi chegando foi o fermento justo. Quem foi saindo também. Porque às vezes a gente pensa assim, as rupturas a gente tende a ter muita dureza na leitura das rupturas, mas o quanto que é importante. Porque é a quebra da massa, sabe? Eu sou muito feliz por ter participado naquele período, até o tempo que eu fiquei e tudo que eu aprendi. Então. E hoje está aí um instituto. Um tanto de gente está trabalhando e hoje tem dinheiro. E naquele tempo não tinha. Tanto que era uma luta pra pagar um aluguel. Aí, doideira. Mas falei tá aí. Quem começou a puxar profissionalmente mesmo assim encampar como trabalho, eu cito Fabrícia, eu cito Elmo... Na época tinha a Mayara, Andrine, sabe? Essa galera que inicialmente eu sentia: eles pegaram o boi pelo chifre. Tinha André e Cida que conduzia e tinha essa galera e outros alunos que não ia para a cena, não trabalhava com atuação diretamente, mas tava ali no Instituto, no dia a dia, naquele lugarzinho que a gente estava funcionando mesmo. Que não era o Instituto ainda, era o In-Cena.
Onde funcionava o In-Cena tinha alguém que estava ali fazendo o café, tinha algum que chegava mais cedo. Era um pão... Então, as pessoas que tinham mais sensibilidade, não é que eu tivesse, tinham outras pessoas que tinham e quem afenizava ia chegando e colando. Eu sei que aquela turma tinha dia que eles iam para a cena sem cachê. Quando começou a entrar caixa, a gente o tanto que a gente vibrou de ver que os meninos entenderam finalmente que aquilo era uma profissão que poderia ser rentável, que era uma maneira de sobreviver também porque, sinceramente, eu acho que a maioria não tinha essa noção ainda de que poderia ser uma profissão por estar onde a gente está é porque no interior, qual é a leitura de arte? Vamos falar a verdade, até hoje tem a leitura do artista como vagabundo. Isso não paga conta. Isso é oba oba, é só firula. Esse trabalho do In-Cena prepara num nível de... de trabalho com educação. Como faculdade nenhuma faz. O que você absorve em termos de olhar para ela, para a prática diária. O banco da universidade não vai te dar isso, A faculdade não te dá.
É diferente. E é isso mesmo. Eu olho com muita gratidão, um amor imenso. Eu tenho muita alegria por tudo o que eu vivi aqui. Gente, eu fui atriz por um período, eu fui cantora, eu pude trabalhar como produtora, eu trabalhei no festival de teatro, eu ajudei o Festival de teatro a nascer. Voltando pra casa, lá do In-Cena Francisco Sá, as vezes a gente parava tomar caipirinha e ficava por ali, eu e o André voltando de uma dessas noitadas de caipirinha. Que era uma, que a gente já não aguentava beber uma e ia embora. A gente voltando ali perto do Alfredo Sá, da ponte um pouco e André: “Oh preta, bora fazer um festival de teatro?” Olhei pra esse homem: “É doido!” Fazer um festival de teatro dentro dessa cidade e já tem até nome: “FESTTO!” Inicialmente eu achei assim: “Meu Deus, que loucura!” Sabe aquela coisa que você faz pensar: “Ah, vai acontecer mesmo?” No espaço de pouco tempo a ideia surgiu e quando eu vi, eu já estava lá vendo Maria Amália recebendo gente do Brasil, de fora do Brasil. Falava: “Meu Deus do céu!” E aquela ferveção, e sabe quando você para e fala assim determinada situação e fala assim: “Gente, eu sou doida! Todo mundo que está aqui é doido, mas que delícia, sabe?” Foi assim o FESTTO foi isso. “Eu via a mulher preparando outra pessoa. O tempo parou pra olhar para aquela barriga” e o FESTTO, sempre assim, quando eu cantava, às vezes minha família estava, às vezes não estava, às vezes meu pai estava ou sei lá, aquele dia, quando eu terminei, acabou. Eu cheguei perto, minha mãe me abraçou, cumprimentou e ela fez assim. Sabe aquele olhar de mãe quando olha pro lado e não fala nada? Ela piscou. Tipo assim: “Depois eu te falo.” Aí ele veio, me abraçou e saiu. Quando meu pai saiu minha mãe falou comigo assim: “seu pai chorou. Seu pai chorou vendo você cantar.” E aquilo me pegou muito, porque eu lembrei daquele pai.
Falava assim: “Não vai mexer com música, não!” Sabe? “Vocês não tem que trabalhar com música, não!” E ali eu falei, gente, talvez é o que pai viu hoje aqui, mexeu em algum lugar nele, sabe? Enfim, eu tenho essa lembrança desse dia de minha mãe falar assim: “Seu pai chorou te vendo cantar.”
“Gosto de você assim como você é.
Pode me amar assim como você quer?
Eu não vou aguentar."