Florisvaldo Junior
Florisvaldo Junior
Transcrição:
Eu fui salvo pela arte assim quase que por acaso, porque eu fui começar a ter contato com uma diversidade cultural maior a partir dos 18 anos, quando eu fui para a faculdade e eu não fui estudar cinema porque eu gostava de arte porque gostava de filmar, mas eu não tinha noção que era a arte, que era a cultura.
Aí eu fui conhecer a MPB e fui conhecer samba. Eu já era muito apaixonada pela literatura. Eu já lia muito no ensino médio, eu lia muito e eu gostava muito de carne proteica. Mas, por exemplo, eu era muito restrito musicalmente. Eu só escutava sertanejo. Sertanejo na época, que era Roberta Miranda, Zezé de Camargo Fialho e ai a partir disso foi então que eu comecei a conhecer esse universo artístico. Pensando aqui.
Eu a primeira imagem que eu tenho de dessa questão de cultura de arte. Primeira quarta série, a escola todo ano fazia um teatro com a turma e eu morria de medo. Nunca e nunca fiz teatro, nunca passei pelo teatro, saia correndo dos ensaios, não queria fazer parte. Hoje eu fui parar e fui parar no grupo de teatro. No Rio.
Eu não fiz teatro, eu tive contato com o teatro, tenho amigos do teatro, mas eu não fiz aula de teatro, nem nunca tinha feito nada no teatro. E aí eu fiquei sabendo que tinha aula, fui lá no Teatro Vitória, atrás dessa aula, o pessoal estava ensaiando um espetáculo que chama Perdoa-me Por me Traíres e eu fiquei apaixonada já com o ensaio dessa coisa bacana maravilhosa.
Ai quando terminou o espetáculo, levanta um homem lá do meio e começa a gritar “Que horrível a pior apresentação que eu já vi da minha vida! Tá horroroso! Eu fiquei: “credo! Que cara é esse?” Aí descobri que esse cara eu teria que conversar pra entrar na aula de teatro e tal. Foi o primeiro contato que tive com André Luiz. Já foi ele xingando todo mundo e querendo corrigir o espetáculo lá.
E aí eu fui conversar com ele no final da aula sobre. Me apresentei: “Meu nome é Júnior, eu formei em cinema no Rio, eu fiquei sabendo da aula de teatro. Queria participar da aula. Ele virou pra mim e falou assim: ”A aula já começou, não tem como você entrar mais. Volta ano que vem.” Aí eu fiquei um ano e fiquei esse ano todo de 2008. Eu ia lá nas apresentações do grupo.
Aí eu vi “Perdoa-me por te traires” e “em tempo de flores e espinhos”, no outro ano eu fui, aí já era no Sesc. Aí eu consegui me inscrever e fiz uma apresentação com o espetáculo da minha turma que chamava “Pedaços”. Que era um texto, recorte de texto de “Abajur ”Lilás” e o outro com o texto do Nelson, que eu não lembro agora.
Essa era uma mistura. Foi muito bacana. Eu fiquei muito nervoso. Eu não conseguia gravar o texto direito. Eu fazia uma mudança de um personagem para o outro durante a cena em que eu me transformava até n’uma travesti, pra fazer o que era do texto escrito Abajur lilás. É interessante que no primeiro dia a gente tinha feito num cenário uns origamis gigante de preto e foi colocado no teto.
Aí, durante a minha apresentação eu estou lá citando aquele texto: “A minha vida. Eu estava arrasada, toda destruída. Não sei o que”... O origami vai, cai, solta do teto, cai bem em frente assim. E ai eu falei: “Meu Deus. Agora, o que eu vou fazer?” Aí eu tive que improvisar. Eu falei: “Está vendo, nada dá certo pra mim. Até o cenário cai”
Nisso o pessoal começou a aplaudir e André estava no fundo do público. Uma pessoa comentou assim: “Nossa até efeitos especial o pessoal colocou”. Mas aí no segundo dia, infelizmente o origami não caiu. Em 2008... 2009... em 2010 eu comecei a fazer as primeiras produções com o grupo. Quando eu comecei a trabalhar com as produções do In-Cena
Eram todas produções assim feito aqui patrocínio local, venda de bilheteria, tudo muito pequeno, né? Quando foi 2012? Aí André alugou a primeira sede do In-Cena, a primeira sede que seria só do In-Cena. Porque o In-Cena já tinha sido o Teatro Vitória, primeiro. Depois passou pro SESC. Ocupou uma sala junto com uma escola que existia, de arte, lá no Sérgio, na época, no prédio que funcionava na época, um restaurante e outras coisas que era do Sérgio Bidula e Rose. Alugou a primeira sede na Francisco Sá em 2012. E aí nós começamos a buscar as turmas. Já tinha alguns editais, não tinha tanto edital igual hoje, mas já tinha algumas coisas e todo eram: “só podia participar Associação sem fins lucrativos.” Aí eu fui estudar e entender como é que funciona. Eu fui pra André. Entendendo o que precisava criar uma empresa, uma associação, passou a se chamar Instituto Cultural In-Cena.
Então aí a gente ficou esse um ano estudando como é que ia funcionar. E em 2013, em abril de 2013, que a gente fez a primeira assembleia para criar o Instituto 2014. Nós ganhamos o primeiro prêmio que chama Prêmio Cena Minas. Depois a gente aprovou o primeiro projeto do FEC, que é o Fundo Estadual de Cultura, que foi o FESTTO.
Então foi tudo muito assim, buscando essas informações e entendendo. Então quando foi em 2013 que acontece de interessante é que aí você começa a ter um grupo, mas isso porque tudo era o grupo In-Cena, aí você começa a separar o grupo In-Cena e O Instituto In-Cena. Então hoje está mais claro. É um grupo In-Cena é o grupo de teatro artístico, de produção, que cria espetáculos.
E o Instituto In-Cena é uma organização social. Hoje nós consideramos organização social que dá direito a acesso à cultura. A preservação e a promoção da cultura local, ela é imprescindível pra gente ter identidade, para a gente ter senso de pertencimento, para a gente valorizar a vida, valorizar a comunidade, valorizar as pessoas. E o instituto In-Cena, ela cumpre esse papel porque primeiro ela trabalha com a diversidade de linguagens, tanto no teatro, na música, no cinema, a cultura popular.
A gente consegue abarcar várias artes. Também, que a gente trabalha com os povos originários, com os quilombos, cultura afro. E isso tudo está presente aqui no nosso território. É tão importante a gente trabalhar e valorizar isso. A nossa missão enquanto instituição é promover o acesso a direitos e através da arte da cultura. Trabalho de audiovisual que o Instituto vem desenvolvendo.
“O Núcleo de Memória Vale de Mucuri” é porque a gente tem a oportunidade das próprias pessoas narrar a sua história. Porque... ainda mais que a gente está trabalhando com linhas que foram historicamente apagadas e não dadas a ela, possibilidade de registrar sua própria história, ou seja, outras pessoas contavam sobre eles... Agora a gente começa nós mesmos contar sobre nós. Então essa é uma outra forma de salvaguardar essa memória.
E aí então a gente hoje tem feito a pesquisa com os povos originários, com os negros negras, Quilombo Urbano Margem da Linha, que mudou, foi reconhecido agora recentemente também aos bairros populares. Aqui, em Teófilo Otoni, a memória do In-Cena, Carnaval e festas populares. Então, são histórias que foram se perdendo ao longo do tempo. E as pessoas hoje, por exemplo, se falar com alguém novo em Teófilo Otoni não vai nunca imaginar que existia carnaval.
Até eu fico impressionado. Escolas de samba com 200 anos em Teófilo Otoni? Em 2016, a gente criou o núcleo de cinema. Foi muito boa. Veio gente assim... de viagem... uma menina de Valadares, Governador Valadares, toda semana para estudar aqui. E de outras cidades aqui próximas também. Foi um resultado muito bacana. A gente teve uma oficina de roteiro, uma oficina de produção e começamos a produzir alguns documentários, algumas coisas bem pequenas também motivado pelo Cine Pojichá que é o festival de cinema que a gente queria também que no festival a gente exibisse coisas de produção nossa. Em 2016 com o núcleo de Cinema, em 2017 a gente fez o primeiro cine Pojichá e a partir daí então que a gente tem conseguido dar mais vazão à isso. Aí veio o projeto de memória e aí agora eu sinto que... agora vem a Lei Paulo Gustavo fazendo algumas coisas. Na Lei Aldir Blanc também a gente produziu muito vídeo durante período após pandemia.
E na pandemia também. A gente usou muito do vídeo da gravação. Muita live. Acabou dando essa forçada para o Instituto encaminhar para o vídeo dentro do In-Cena, tendo... ganhando espaço no audiovisual. Eu acho. Eu acho que dentro do teatro e cinema, então ali ficando, tendo uma importância bem crucial dentro do Instituto Hoje. Ano passado eu estreei como ator, nem esperava.
Tem sido um processo muito interessante para mim. Eu gostei muito. Talvez fosse algo que, eu lembrando daquela minha infância lá que eu fugia do palco, talvez fosse o medo de estar ali. E agora eu perdi esse medo. A minha realização de carreira enquanto cinema também vai se dar... está se dando dentro do In-Cena também. Fora as questões pessoais, de tipo de vida, de trabalho... Total! Minha realização pessoal enquanto artista, enquanto pessoa, ela se dá muito dentro do In-Cena com certeza.